ROM, SINTI E CALON – A diversidade entre os ciganos. (2ª Parte)


“Cigano” é um termo genérico inventado na Europa do Século XV, e que ainda hoje é adotado, apenas por falta de um outro melhor. Os próprios ciganos, no entanto, costumam usar autodenominações completamente diferentes. Hoje, os ciganos e os ciganólogos não-ciganos costumam distinguir pelo menos três grandes grupos:
(1) os ROM, ou Roma , que falam a língua romani; são divididos em vários sub-grupos, com denominações próprias, como os Kalderash, Matchuaia, Lovara, Curara e.o.; são predominantes nos países balcânicos, mas a partir do Século XIX migraram também para outros países europeus e para as Américas;
(2) os SINTI, que falam a língua sintó e são mais encontrados na Alemanha, Itália e França, onde também são chamados Manouch;
(3) os CALON ou KALÉ, que falam a língua caló, os “ciganos ibéricos”, que vivem principalmente em Portugal e na Espanha, onde são mais conhecidos como Gitanos , mas que no decorrer dos tempos se espalharam também por outros países da Europa e foram deportados ou migraram inclusive para a América do Sul.
Estes grupos e dezenas de sub-grupos, cujos nomes muitas vezes derivam de antigas profissões (Kalderash = caldeireiros; Ursari = domadores de ursos, e.o.) ou procedência geográfica (Moldovaia, Piemontesi, e.o.), não apenas têm denominações diferentes, mas também falam línguas ou dialetos diferentes. Como já vimos acima, desde o Século XVIII costuma-se atribuir aos ciganos apenas uma única língua, comum a todos, a língua romani, parcialmente de origem indiana, embora esta tenha também inúmeras palavras de origem persa, turca, grega, romena e de outros países por onde passaram. Na realidade, já então os ciganos falavam várias línguas ou dialetos que, apesar de terem aparentemente uma origem em comum, hoje apresentam profundas variações regionais que tornam uma comunicação cigana internacional na prática impossível. Algo semelhante à atual comunicação entre franceses, italianos, espanhois, portugueses e brasileiros, que todos falam línguas derivadas do Latim: muitas palavras podem ser entendidas por todos, principalmente quando escritas, mas a comunicação verbal na maioria das vezes é difícil, quando não impossível. Segundo Fraser não existe um romani padronizado, único, mas somente na Europa os ciganos falariam cerca de 60 ou mais dialetos diferentes.
De todos os ciganos, os Rom são os mais estudados e descritos. Isto porque estes ciganos, e entre eles principalmente os Kalderash e os Lovara – inclusive no Brasil – , costumam considerar-se a si próprios ‘ciganos autênticos’, ‘ciganos nobres’, e classificar os outros apenas como ‘ciganos espúrios’, de segunda ou terceira categoria. Como antropólogos e linguistas tendem a estudar de preferência povos “autênticos”, que ainda conservam sua cultura e língua tradicional, a quase totalidade dos estudos ciganos trata de ciganos Rom, e praticamente nada se sabe dos outros grupos.
O nomadismo, aparentemente maior entre os Calon do que entre os Rom, pode ter dificultado pesquisas sobre sua língua e seus costumes, mas não explica, nem justifica, porque foram tão negligenciados pelos ciganólogos. Román, por exemplo, informa que na Espanha ainda não foram realizadas intensivas pesquisas históricas e antropológicas sobre os ciganos Calon, naquele país quase todos há muito tempo sedentários. Na França a situação não é diferente: segundo Liégeois, o grupo Rom, naquele país com apenas alguns milhares de membros, é praticamente o único estudado, enquanto as dezenas de milhares de ciganos Sinti (Manouch) e Calon são ignoradas, fato que reforça ainda mais a imagem dos ciganos Rom da Europa Oriental como ciganos ‘autênticos’. Praticamente nada, também, sabemos sobre os atuais ciganos Sinti e Calon no Brasil.
Este “rom-centrismo”, dos próprios ciganos e dos ciganólogos, faz Acton falar até de “romólogos” que, em lugar de analisarem as diferenças existentes entre os grupos ciganos, apresentam um modelo ideal como se os ciganos formassem uma totalidade homogênea. Segundo este sociólogo, “A grande falha da literatura sobre ciganos, oficial e acadêmica, é a supergeneralização; observadores têm sido levados a acreditar que práticas de grupos particulares são universais, com a concomitante sugestão que [os membros de] qualquer grupo que não têm estas práticas não são ‘verdadeiros ciganos’“. Ou seja: a cultura rom passa a ser considerada a “autêntica” cultura cigana, a cultura “modelo”, e quem não falar a língua como eles, quem não tiver os mesmos costumes e valores ….. , bem, estes só podem ser ciganos de segunda ou terceira categoria, ciganos espúrios, inautênticos, quando não falsos ciganos.
Entende-se assim porque a quase totalidade dos livros de ciganólogos que tratam genericamente da suposta “Cultura Cigana”, na realidade descrevem apenas ou quase exclusivamente a cultura dos ciganos Kalderash que durante séculos viveram nos Bálcãs – na atual Romênia na qualidade de escravos, libertos somente em meados do Século XIX – onde desenvolveram uma cultura fortemente influenciada pelas diversas culturas nacionais, em especial a romena. Um exemplo clássico, entre vários outros, é o kris romani, uma espécie de tribunal cigano, sempre apresentado como algo tipicamente “cigano”, quando, segundo Formoso, na realidade é um elemento cultural apenas dos Kalderash, que o tomaram emprestado da sociedade rural romena, e que não existiria nem entre os ciganos Rom Lovara e Curara e é desconhecido também entre os Sinti e Calon. Outros dois exemplos seriam o marimé, as idéias sobre pureza / impureza, que na realidade são de origem árabe e turca, e a pomana, o ritual funerário, de origem romena. O kris, o marimé e a pomana costumam ser descritas por nove entre dez ciganólogos como se fossem comuns a todos os ciganos, quando se trata apenas de características culturais Kalderash. A cultura Kalderash – praticamente a única conhecida do grande público não-cigano – é apenas uma das inúmeras sub-culturas ciganas hoje existentes em todo mundo, cada uma das quais com características próprias, resultantes de histórias diferenciadas de convivência, quase nunca pacífica, com as mais diversas sociedades e culturas.
Porém, os ciganos não se diferenciam entre si apenas linguistica e culturalmente, mas também econômica e socialmente. Como exemplo podem ser citados os ciganos espanhois, cuja população em 1993 deveria ultrapassar um total de 400 mil pessoas, ou seja, cerca de 1,1% da população nacional. Garcia distingue entre eles quatro categorias sociais bem distintas, a saber:
(1) uma pequena elite com alto nível de instrução (diplomas e carreiras universitárias), geralmente indivíduos de famílias ‘integradas’ também com bom nível de instrução, e que têm empregos assalariados e muitas vezes casam com gadjé [denominação genérica usada pelos ciganos para os não-ciganos ]; entre eles encontram-se os ativistas políticos que, entre outras coisas, lutam pelo reconhecimento da identidade cigana;
(2) um grupo numericamente maior do que o anterior, mas ainda minoria entre os ciganos, de “tradicionalistas” geralmente economicamente bem sucedidos que vivem “à la gitane”, exercendo profissiões tradicionais (antiquários, comerciantes, artistas), casam entre si e dentre de sua categoria social, e gozam de prestígio e admiração entre os outros ciganos;
(3) o grupo maior é formado por ciganos em mutação que vivem em bairros periféricos ou marginais das cidades, muitos deles misturados com gadjé, o que exige adaptações nos seus valores tradicionais e nas relações sociais. As crianças frequentam a escola e a convivência com gadjé é constante no trabalho, na vizinhança, nos bairros, nas instituições públicas. Suas atividades econômicas – comércio ambulante, ferro velho, trabalhos temporários – estão em declínio e por isso muitas vezes passam a depender da assistência social. Para eles, hoje só há uma alternativa: ou eles se assimilam nas camadas mais baixas da população, ou então eles ficam à margem da sociedade como grupo, e com a marginalização individual de muitos deles;
(4) um grupo desestruturado e marginal, o segundo em importância numérica, cujos membros vivem em favelas, não têm emprego permanente mas vivem de apanhar ferro ou papel velho, de vez em quando comércio ambulante, atividades sempre mais difíceis de exercer. Costumam ser analfabetos e seus filhos não frequentam a escola com regularidade. Em tudo dependem da assistência pública, e não há como sair desta situação. São considerados um grupo socialmente problemático, gerador de conflitos e responsável pelos estereótipos negativos sobre os ciganos. Sua cultura hoje é semelhante à de outros grupos sociais miseráveis. Para sobreviver dedicam-se também à mendicância e a praticas ilegais como o tráfico de drogas.
O sociólogo Acton, por sua vez, apresenta uma tipologia dos ciganos ingleses, de acordo com o seu grau de integração na sociedade gadjé, e que tem algumas semelhanças com a classificação citada acima: (1) ciganos conservadores, (2) ciganos em processo de desintegração cultural, (3) ciganos em fase de adaptação cultural e (4) ciganos assimilados ou em processo de assimilação.
Inúmeras outras classificações são possíveis, de acordo com os interesses teóricos ou práticos de cada pesquisador. O que importa aqui, no caso, não são tanto as duas classificações acima, mas deixar bem clara a enorme diferenciação que existe entre os ciganos, mesmo entre os ciganos de um determinado país ou região, para que sejam evitadas levianas generalizações que normalmente são mais prejudicais do que benéficas para as minorias ciganas. Nas palavras de Acton: “[Os ciganos] são um povo extremamente desunido e mal-definido, possuindo uma continuidade, em vez de uma comunidade, de cultura. Indivíduos que compartilham a ascendência e a reputação de “cigano” podem ter quase nada em comum no seu modo de viver, na cultura visível ou na língua. Os ciganos provavelmente nunca foram um povo unido”.
Desconhecemos estudos detalhados sobre as diferenciações entre ciganos em países específicos (por exemplo, entre Kalderash e Calon no Brasil), mas é mais do que provável que em todos os países existam ciganos ricos e pobres, conservadores e progressistas, analfabetos e outros com diplomas universitários, politicamente passivos ou ativos, nômades e sedentários. Cabe aos cientistas sociais documentar esta imensa variedade cultural e social, algo que até hoje ainda não foram capazes de fazer, nem na Europa, nem no Brasil, nem em outras partes do Mundo.

Ciganos ‘verdadeiros’ e ‘outros’ ciganos.

Muitos ciganólogos têm observado que os ciganos Rom, e entre eles em especial os Lovara e os Kalderash, costumam auto-classificar-se como ciganos “autênticos”, “verdadeiros”, “nobres”, “aristocratas”, de primeira categoria, sendo todos os outros apenas ciganos “espúrios” ou “falsos” ciganos. Infelizmente, esta atitude discriminatória (dos próprios ciganos) é assumida também por muitos gadjé que realizam estudos ou trabalhos práticos entre os ciganos, ou por legisladores ou membros de organizações ciganas e pró-ciganas. Sabendo disto, muitos ciganos se dizem Rom, ou Kalderash, embora sem nunca ter sido. Okely, por exemplo, informa que na Suécia,

“ciganos originários da Polônia, sem prévias pretensões de serem Kalderash, adotaram nomes Kalderash quando de sua chegada na Suécia porque a estas pessoas é atribuído um status exôtico e favorável pela sociedade dominante. De fato, Tattares [nômades não-ciganos] são excluídos de lucrativos programas sociais. Parece que também em outros países da Europa, por exemplo na Bélgica, França, Holanda e Alemanha, grupos ou ‘tribos’ que se apresentam como Rom, Kalderash ou Lovari têm mais probabilidade de serem considerados de origem oriental, indiana, e de receberem status ‘real’, mesmo que só por estudiosos e representantes políticos gadjé”.

Mas como se isto não bastasse, os ciganos ainda se discriminam mutuamente também por outro motivo: os ciganos sedentários muitas vezes olham com desprezo para os ciganos nômades que persistem nesta vida “primitiva”, enquanto os nômades acusam os sedentários de terem abandonado as tradições, e com isto terem deixado de ser ciganos. E com isto surgem intermináveis debates, entre os ciganólogos, sobre quem é cigano autêntico e quem não é. Debates, por sinal, estéreis, porque definir quem é e quem não é cigano é, de fato, uma tarefa praticamente impossível porque não existem critérios objetivos universalmente aceitos ou aceitáveis.
Ao chegarem na Europa Ocidental, no início do Século XV, os ciganos ainda podiam facilmente ser identificados através de sua aparência física, sendo a característica mais marcante a sua pele escura. Hoje isto já não é mais possível. Apesar da ideologia da endogamia, casamentos com não-ciganos sempre ocorreram, de modo que em muitos países hoje os ciganos fisicamente não se distinguem da população gadjé nacional. Ciganos “racialmente puros” hoje não existem mais em canto algum do mundo, e nunca existiram, porque nunca existiu uma “raça” exclusivamente cigana. Impossível, portanto, identificar os ciganos através de características físicas peculiares ou estabelecer “critérios biológicos de ciganidade”.
Por sinal, já se tentou fazer isto no passado, mas sem êxito. Na Alemanha nazista, por exemplo, antropólogos físicos e biólogos tentaram descobrir, para fins práticos, quais as características raciais ciganas, já que na maioria dos casos era impossível distinguir os ciganos do resto da população, através de características físicas, culturais ou outras. Mas mesmo os nazistas nunca foram capazes de descrever estas características. Daí porque, na Alemanha daquele tempo, era considerado “cigano” todo indivíduo com três avós “verdadeiros ciganos”; mestiço em primeiro grau era quem tinha menos do que três avós “verdadeiros ciganos”; mestiço em segundo grau era quem tinha pelo menos dois avós “ciganos-mestiços”. Mas, acreditem se quiserem, para os ‘cientistas’ (antropólogos e biólogos) nazistas, avó ou avô “verdadeiro cigano” era aquele que sempre tinha sido reconhecido, pela opinião pública, como “cigano”. Ou seja, no final das contas, quando da identificação ‘racial’ dos vovôs e das vovós, passavam a usar critérios subjetivos (sociais/culturais), e não objetivos critérios científicos (biológicos/raciais). Calcula-se que cerca de 500.000 ciganos europeus foram exterminados pelos nazistas antes e durante a II Guerra Mundial.
Classificar como “verdadeiros” ciganos todos aqueles que falam uma língua cigana também não adianta, porque muitos ciganos já não a falam mais e outros a dominam muito mal, ou até já a esqueram por completo. Muitos autores, de várias partes do mundo, afirmam que, mesmo entre si, os ciganos costumam falar a língua do país em que vivem e que a língua cigana, na maioria das vezes, costuma ser usada apenas ocasionalmente, quando necessário. San Román, por exemplo, informa que na Espanha, “excluindo os ciganos nômades, poucos conhecem [a língua] Caló, e recorrem a ela principalmente na presença de payos [a palavra espanhola para não-ciganos] que desejam enganar, e dos quais querem distinguir-se. (…) [A língua Caló] não é tanto um meio de comunicação, mas antes um meio para excluir os payos dos assuntos ciganos. Entre si falam espanhol”.
Características culturais exôticas, visíveis externamente, também não servem mais para identificar os ciganos, pelo simples fato de que os ciganos não têm, e provavelmente nunca tiveram, uma cultura única. Um exemplo, entre muitos outros possíveis, é o vestuário. Muitas mulheres ciganas ainda usam longas saias, além de jóias de ouro e prata, mas inúmeras outras não. Os homens ciganos, ao que tudo indica, nunca tiveram uma roupa “típica”, a não ser às vezes no meio artístico. Por isso, em quase todo mundo os ciganos usam a mesma roupa dos gadjé do país em que vivem, a não ser nas ocasiões em que é necessário ou útil ser reconhecido como cigano, o que pode ser o caso com mulheres que se dedicam à quiromancia, ou com homens que exercem atividades artísticas, p. ex. músicos das populares ‘orquestras ciganas’ européias, fantasiados com fardas de militares húngaros ou cossacos russos de séculos passados. No carnaval europeu (e parece que também brasileiro), no entanto, as fantasias ‘ciganas’ populares mais usadas pelos gadjé costumam ser imaginárias vestimentas ciganas ibéricas, tanto para os homens quanto para as mulheres. Desnecessário dizer que nenhum cigano e nenhuma cigana veste uma roupa desta na vida real.
Muitas vezes mulheres gadjé que se dedicam a atividades esotéricas costumam fantasiar-se de “cigana” conforme os estereótipos existentes na região, o que dá mais “status” e atrai mais clientes. Já dissemos que o vestuário estereotipado cigano em muitos países costuma ser uma popular fantasia carnavalesca. O problema é que, às vezes, os próprios ciganos passam a usar estas fantasias, como se fosse seu vestuário tradicional, o que parece ser o caso principalmente com artistas que apresentam músicas e danças ditas ciganas, e que por isso não apenas precisam ser, mas também precisam parecer ciganos, e de preferência Kalderash. E para parecer um cigano, somente usando um estereotipado vestuário cigano, nem que seja uma fantasia carnavalesca. No Brasil, alguns ciganos, inclusive, adotaram nomes artísticos ou fizeram retoques nos seus sobrenomes portugueses ou italianos (que poderiam denunciar uma descendência Calon ou Sinti, menos valorizada pelos gadjé e pelos próprios ciganos) e deram-lhes uma aparência mais balcânica, mais “Kalderash”, substituindo, por exemplo, os terminais -ite e –ides por –itch ou -icth, ou -ante por -anov, ou algo semelhante.
Já vimos que este processo de ‘kalderashização’ também foi observado por Okely na Suécia, entre ciganos poloneses. É óbvio que, no Brasil, uma “Orquestra Cigana Francisco Santana Filho”, vestindo roupas de couro dos vaqueiros nordestinos, teria bem menos chance de obter sucesso do que uma “Orquestra Cigana Ferenc Santanovitch”, vestindo-se a la gitane, com carnavalescas fantasias ciganas (húngaras, russas ou espanholas), e as mulheres dançando alegremente um csàrdás húngaro vestindo roupas de bailarina flamenca espanhola. Trata-se de uma estratégia artística legal, adotada mundialmente.
Uma das características sempre atribuídas aos ciganos tem sido seu nomadismo, sua vida errante, de modo que muitas vezes ciganos são identificados como nômades, e vice-versa. No Reino Unido, para fins legais, os juizes da Suprema Côrte concluiram em 1967 que cigano era ‘uma pessoa que leva uma vida nômade sem emprego fixo e sem domicílio fixo’. Logo depois, a Caravan Sites Act de 1968 definiu ciganos como “pessoas com um modo de vida nômade, qualquer que seja sua raça ou origem, excluindo artistas viajantes ou pessoas que trabalham em circos viajantes”. Ambas as definições jurídicas são totalmente errôneas, porque na Europa, e inclusive no Reino Unido, vivem centenas de milhares de nômades que não são ciganos, não se identificam e nem querem ser identificados como ciganos, e sabe-se que, por motivos diversos, hoje apenas uma minoria cigana é nômade. Por isso, para alguém ser um “verdadeiro” cigano, não há porque exigir que ele tenha uma vida nômade. Ciganos nômades ainda existem, mas muitos hoje são semi-nômades ou sedentários: os nômades viajam regularmente, os semi-nômades (ou semi-sedentários) viajam somente durante parte do ano e ficam em acampamentos fixos ou em casas e apartamentos durante o resto do tempo; os sedentários deixaram de viajar por completo ou viajam dificilmente, mas nem por isso deixaram de ser ciganos.
Um caso talvez raro, mas que certamente não será o único no mundo, são os ciganos que a antropóloga Kaprow encontrou em Zaragoza, na Espanha. Embora auto-identificados e identificados pelos gadjé como ciganos, não apresentavam nenhuma das características normalmente atribuídas aos ciganos: viviam em casas, frequentavam lojas, hospitais, cinemas, como os outros espanhois, dos quais fisicamente em nada se distinguiam; falavam apenas espanhol, e não tinham atividades profissionais especiais, tipicamente “ciganas”. Ou seja: nenhuma característica exterior possibilitava a identificação destes “ciganos” de Zaragoza, que não tinham tradições, valores, ideologias, rituais, culinária, etc. próprias. Mesmo assim se identificavam e eram identificados como ciganos.
Quem é então cigano? Dizer, como faz Acton, que cigano é “toda pessoa que sinceramente se identifica como tal” não é uma definição satisfatória, por ser unilateral, porque a identidade étnica, da mesma forma como a identidade nacional, é bilateral e exige também que o grupo étnico, ou a nação, reconhece o indivíduo como membro. A questão é bastante complexa porque, como lembra Willems, “em princípio estão envolvidos quatro partes: os definidos, isto é, os ‘ciganos’, as autoridades (Igreja e Estado), os cientistas e o povo”. Cada uma destas partes pode ter opiniões e definições diferentes sobre quem é ou não é cigano. Um bom exemplo de confusão terminológica é oferecido pela ex-Iugoslávia.
Naquele país, em 1990 milhares de individuos tradicionalmente identificados como “ciganos” passaram a auto-denominar-se “egípcios” e exigiram ser reconhecidos como narodnosti (nacionalidades, ou minorias nacionais, como os albaneses e húngaros residentes no país) e não mais como grupos étnicos, como os ciganos. Informaram, ainda, terem sido os fundadores do “Pequeno Egito”, na Grécia, quatro séculos antes de Cristo. Suas atividades comerciais os teriam levado até a Macedônia (na ex-Iugoslávia), onde fizeram florescer as cidades de Ohrid e Bitola, nas quais vivem há séculos. Por terem sempre adotado as línguas dos povos com os quais faziam comércio, teriam esquecido por completo a língua egípcia. Somente muitos séculos depois, também outros imigrantes, os tais ‘ciganos’, teriam chegado ao “Pequeno Egito”, de onde depois se espalharam pelo resto da Europa e do Mundo. No censo anterior, de 1981, quando este movimento ainda não tinha iniciado, a maioria destes “iugo-egípcios” declarou ser “albanês”, enquanto os albaneses legítimos os consideraram “ciganos albanizados”.
Para nós não interessa aqui discutir se esta história sobre a origem egípcia, que se baseia numa mais do que duvidosa história oral, é verdadeira ou apenas mais uma lenda, uma fantasia. O que interessa é saber que de repente milhares de indivíduos (eles próprios calcularam que eram 100.000), tradicionalmente denominados “ciganos”, de repente passaram a negar esta identidade e assumiram outra, tirada de um baú de lendas, estórias e fantasias, para a qual reclamaram, inclusive, o status superior de narodnosti (nacionalidade ou minoria nacional).
Apesar de todas estas dificuldades, definimos aqui cigano como cada indivíduo que se considera membro de um grupo étnico que se auto-identifica como Rom, Sinti ou Calon, ou um de seus inúmeros sub-grupos, e é por ele reconhecido como membro. O tamanho deste grupo não importa; pode ser até um grupo pequeno composto de uma única família extensa; pode também ser um grupo composto por milhares de ciganos; nem importa se este grupo mantém reais ou supostas tradições ciganas, ou se ainda fala fluentemente uma língua cigana, ou se seus membros têm “cara” de cigano ou características físicas supostamente “ciganas”.
A identidade cigana é automaticamente transmitida aos filhos quando ambos os pais são ciganos. No caso de casamentos mistos, com gadjé – que, embora exceção, sempre existiram – geralmente os filhos só serão considerados ciganos se os pais residam no grupo ou mantenham vínculos com o mesmo, e desde que os filhos sejam educados na ‘tradição cigana’, seja ela qual for. A identidade cigana pode ser perdida, primeiro, por opção individual, quando o indivíduo se desliga consciente e voluntariamente do seu grupo e passa a viver no mundo dos gadjé, assimilando seu modo de vida; segundo, pelo casamento com gadjé e posterior opção pela vida fora do grupo, no mundo gadjé, caso em que também os filhos não serão mais considerados ciganos; e finalmente, por expulsão, quando o indivíduo, por ter infringido certas normas grupais, deixa de ser considerado membro da comunidade cigana.
Quanto à suposta autenticidade e aristocracia dos Kalderash ou Lowara, subscrevemos a afirmação de Williams que considera inadmissível a distinção entre “verdadeiros” ciganos, aos quais se atribue uma origem exôtica e riqueza cultural, e “os outros”, que seriam apenas marginais no mundo cigano. Ou seja: não existem ciganos autênticos e ciganos espúrios: existem apenas Rom, Sinti e Calon, que possuem inúmeras auto-denominações, que falam centenas de linguas ou dialetos, que têm os mais variados costumes e valores culturais, que são diferentes uns dos outros, mas que nem por isso são superiores ou inferiores uns aos outros.
Em comum todos eles têm apenas uma coisa: uma longa História de ódio, de perseguição, de discriminação pelos não-ciganos, em todos os países por onde passaram, desde o seu aparecimento na Europa Ocidental, no início do Século XV.

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